Conto
A semana que passou foi de muita chuva em Lages, o que fez com que ficássemos recolhidos em casa. Maicon percebeu que precisava fazer algo pra sair de vez daquela situação. No celular uma mensagem: “Sai dessa fossa meu amigo! A vida é curta. Aproveite o dia! ”

A semana que passou foi de muita chuva em Lages, o que fez com que ficássemos recolhidos em casa. Maicon percebeu que precisava fazer algo pra sair de vez daquela situação. No celular uma mensagem: “Sai dessa fossa meu amigo! A vida é curta. Aproveite o dia! ”
Aquilo caiu como uma luva. Afinal, ficar isolado dos seus
amigos por conta de estar sem trabalho, não ia resolver nada. E ainda por cima
ter terminado seu namoro, desde que fez uma declaração de amor
em púbico no Serrano’s Bar. O que seria de sua vida, daqui por diante?
“O que tiver que ser será”, falou Maicon pra si mesmo.
É preciso ser forte e suportar todos os reveses. Maicon não
teria do que se envergonhar. Qual o problema, afinal? O jeito era abrir os
olhos e seguir adiante. “Amar quem quer que fosse”, esse era seu lema.
O domingo amanheceu chuvoso novamente. A madrugada já havia
sido um terror. Tanta chuva que o rio rapidamente transbordou. Prejudicando principalmente as famílias que moram nas regiões ribeirinhas.
No rádio Maicon ouviu que estavam recrutando voluntários
para ajudar no resgate de pessoas desabrigadas.
Resolveu então arregaçar as mangas e agir em prol da sua comunidade.
Esteve na Associação de Moradores dos bairros que foram atingidos pelas
enchentes. Lá chegando encontrou diversas pessoas dispostas a ajudar.
Precisavam de mantimentos, roupas, material de limpeza, cobertores...
Dessa forma Maicon até esqueceu de seus próprios problemas.
Aliás, pareciam pequenos grãos de areia perto de tantas lágrimas que viu cair
dos olhos daquelas mulheres e crianças.
Mas o que fazer quando se está muito triste? Sei lá por que
razão. Talvez Maicon até soubesse, mas não queria dizer. Somente o trabalho pra
curar as feridas que ficam na alma. E pensando nisso, decidiu levar sua cachorra
Lessie pra passear, naquela tarde de quinta-feira, feriado de Corpus Christi.
Ao longe viu uma multidão de fiéis que seguiam na procissão.
A chuva já havia cessado e a cidade voltou a sorrir. Até mesmo o Recanto do Pinhão, que é realizado na praça João Costa, no centro, estava
repleto de gente, curtindo música tradicionalista. E aquele aroma de quentão e
paçoca fez com que ele lembrasse de quando ia nas festas antigamente no Parque
do Conta Dinheiro. Tratou imediatamente de comprar um chocolate quente
com uma dose de conhaque pra aquecer, pois a noite cai em Lages e o frio vem chegando de
mansinho.
Na semana seguinte, em meio a tantas notícias que nos
surpreendem todos os dias, nada foi mais impactante do que saber que o bispo
emérito de Lages, Don Oneres Marchiori havia falecido. Maicon que havia sido
crismado por ele aos catorze anos, também ficou triste. Não há como negar a
comoção que se instalou na cidade por conta do funeral deste cidadão ilustre.
A Catedral Diocesana rapidamente ficou toda iluminada e
muitas coroas de flores começaram a chegar. Flores amarelas, brancas e vermelhas enviadas por diversas pessoas e entidades da sociedade lageana. Os fiéis se aglomeravam pelas
laterais para estar mais próximos do corpo. Muitas orações e missas foram
realizadas para acalentar a alma de todos que se faziam presente para o último
adeus.
Maicon fez questão de participar da cerimônia. Pois era como
estar na despedida de um amigo. E viu no olhar daquelas pessoas, a angústia
que sentimos quando perdemos algo que sabemos que nunca mais volta. Como o
entardecer nos dias de inverno, quando nos encontramos ao redor do fogão à
lenha no âmago de nossas casas, e ficamos a ouvir estórias de nossos antepassados. Histórias que nos fascinam e nos dão a
certeza que viver vale a pena.
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