quarta-feira, 25 de julho de 2012

Dia do Escritor




O Poço 
Pablo Neruda

Cais, às vezes, afundas
Em teu fosso de silêncio,
E mal consegues
Voltar, trazendo restos
Do que achaste pelas profundezas,
Da tua existência
Meu amor, o que encontras
Em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
Rancorosa e ferida?

Não acharás amor,
No poço em que cais
O que na altura guarda para ti
Um ritmo de jasmins todo orvalhado,
Um beijo mais profundo que esse abismo

Não me temas, não caias
De novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
E deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
Sem que tu a dirijas,
Porque fui carregada com um instante duro.
E esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
Se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
Como em contos de fadas,
Mas um lenhador que comparte contigo
Terras, ventos e espinhos das montanhas.

Dai-me amor, me sorri
E me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil.
Não te firas a mim porque te feres.


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